Patrimônio Sustentável: Um Olhar sobre o Conjunto Moderno da Pampulha
Patrimônio
Sustentável: Um Olhar sobre o Conjunto Moderno da Pampulha
Autor: Júnio G. P. Machado
Resumo: Este artigo visa a compreensão das políticas e
ações adotadas pelos órgãos nacionais e internacionais em relação à escolha do
Conjunto Moderno da Pampulha como Patrimônio da Humanidade e as consequências
das políticas de salvaguarda para a sustentabilidade do bem e a manutenção de
sua função social.
Palavras-chave: Sustentabilidade; Patrimônio
Imaterial; Tombamento; Função Social do Patrimônio; Conjunto Moderno da
Pampulha.
O “Conjunto Moderno da
Pampulha” recentemente foi elevado ao título de Patrimônio da Humanidade pela
UNESCO (organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura), a
escolha deste patrimônio para compor a lista dos patrimônios da humanidade e os
motivos que levaram à esta escolha tornaram-se motivo de muitas pesquisas e
discussões a respeitos dos critérios adotados e suas implicações para o próprio
conjunto e para a cidade como um todo.
O Conjunto acima mencionado
começou a ser construído na na década de 40 no antigo Arraial de Santo Antônio
da Pampulha, apesar dos primeiros investimentos terem sido feitos pelo então
prefeito Octacílio Negrão de Lima, foi a partir da administração de Juscelino
Kubtischeck, através de seu caráter progressista, que a região passou a contar
com suas características atuais. À princípio o espelho dàgua e as áreas verdes
desta região seriam utilizados para o uso como áreas de lazer e práticas
esportivas “‘cidade turismo’; ou ‘Cidade satélite’, como também era conhecida,
recebeu um plano de obras de caráter monumental e de valor urbanístico,
turístico, social e esportivo. Para tanto planejou-se a construção de um
cassino, de uma casa de baile, do Iate Golfe Clube, da estação de tratamento de
água, de um posto médico e de um posto policial.” (ARQUIVO PÚBLICO DA CIDADE DE
BELO HORIZONTE, 2005, p.09)
Foto 1: Vista do Conjunto Moderno da Pampulha.
Fonte: Júnio Machado, 2018.
Ao lançarmos mãos sobre a
origem do Conjunto Moderno Da Pampulha e os significados que hoje são
aplicados ao mesmo, logo levantamos diversos questionamentos sobre o mesmo,
tais como sua autenticidade e reconhecimento local, como sua sustentabilidade,
sendo esta última uma questão que passou a ser uma das principais pautas da
atualidade, fazendo com que a compreensão do patrimônio e as políticas de
proteção a ele destinadas são peças fundamentais na busca por um cenário
construído horizontalmente e de maneira consciente e equilibrada tanto
financeira quanto qualitativamente.
Ao nos debruçarmos sobre a
questão da construção do patrimônio que temos hoje, principalmente o edificado,
logo notamos que há ao mesmo tempo um romantismo quanto um afastamento em
relação ao mesmo, este afastamento que pode ser compreendido também como uma
espécie de “violência simbólica”. segundo CHOAY (2001) esta relação romantizada
criada em torno do patrimônio construído deve-se á um processo de “afastamento
histórico” que tem sua origem em meados de 1400 d. C na Grécia.
“Á época em que
Petrarca escreve o poema “África’, no entanto, os edifício clássicos estão a
serviço de uma relação ainda exclusivamente textual com a Antiguidade. A forma
e a aparência dos monumentos romanos não requerem a sensibilidade visual; eles
dão uma legitimidade á memória literária. mais que seus monumentos individuais,
é todo o sitio de Roma que evoca antes de tudo ‘um modo exemplar (...), a
virtus e a virilidade, em uma palavra, um clima moral.” (CHOAY, 2001, P.45)
Um terceiro aspecto que deve
ser levando em consideração quando tratamos a sustentabilidade de uma
edificação que se encontra sob a tutela do Estado é seu aspecto estético, que
na maior parte das vezes é considerado o principal aspecto do Bem tombado. Está
enfase dada a este aspecto em questão acaba levando os conservadores e
restauradores á um grande equívoco em relação a manutenção de tais patrimônios,
uma vez que estes profissionais com a mais bela das intenções sugerem que para
garantir a autenticidade e conservação da edificação é necessário o seu
tombamento como um todo, ou seja, são impostas limitações ao uso, a adequação e
as reformas. Ora, logo notamos que há por parte dos profissionais envolvidos
uma certa ingenuidade no que diz respeito a autenticidade e “vida” deste patrimônio,
nota-se que estes profissionais, apesar de possuírem um grande conhecimento
técnico e científico, acabam sendo atraídos pelo encanto estético do bem e
traídos por seu doce néctar.
Obviamente não podemos, assim
como nossos amigos arquitetos, historiadores e museólogos ceder ao engano de
que o caráter estético é a principal característica de um patrimônio, e que tal
característica se sobrepõe às demais ao se analisar a importância histórica e
social de um monumento/documento. Ao contrário do que se pode supor esta
tendência de adoração do “belo”, tendo como base elementos como proporção,
simetria e ritmo foi sistematicamente inserida no “gosto” popular até que suas
origens fossem aos poucos sendo distanciadas pelo tempo transcorrido e que esta
admiração pela estética, principalmente a estética clássica, soasse natural.
Segundo CHOAY (2001 p. 49) entre 1420 e 1430 abre-se um diálogo entre artistas
e humanistas, sendo os primeiros educadores do olhar dos segundos dotados de
alta cultura e prestígio social, segundo a autora “os primeiros formam o olhar
dos segundos, ensinando-lhes a ver com outros olhos. Por sua vez, estes últimos
revelam ao arquitetos e escultores a perspectiva histórica e a riqueza da humanitas
greco-romana, cujo conhecimento faz com que sua visão das formas antigas
adquira uma acuidade e uma profundidade inéditas.” (CHOAY, 2001, p. 49). Como
pode-se notar o modelo de admiração da estética em relação ao Monumento vem de
longa data e influencia de maneira direta nas políticas de proteção e
inventariação de bens culturais, no entanto trataremos aqui o modo como esta
valorização desta característica em detrimento de outras no que diz respeito à
conservação e restauro de monumentos e edificações tombadas. Em primeiro lugar
nota-se um grande acúmulo de bens que foram submetidos às leis de salvaguarda e
que, guardada as devidas proporções, foram escolhidos de maneira vertical por
grupos de grande influência política e que tem como justificativa básica, às
vezes única, a proteção do bem devido á sua estilística arquitetônica, sua
riqueza de detalhes ou simplesmente por considerá-los velhos. Como se pode
notar os patrimônios que são hoje submetido a leis de salvaguarda são eleitos
de forma vertical e embasados, como aponta CHOAY, na tríade “bela antiguidade,
idade obscura e renascimento moderno”, ou seja, dá-se valor apenas ao que se
considera antigo ou contemporâneo, excluindo-se tudo aquilo que pertence aos
períodos medianos, em outras palavras, o presente é excluído do processo, assim
como os grupos sociais que nele se situam.
“A literatura dos
humanistas sobre o conhecimento e o prazer propiciados pelas obras da
Antiguidade faz com que se espere que sejam conservadas, de forma deliberada e
organizada. Esta assume formas diferentes segundo se trate de objetos móveis ou
de edifícios [...] Por outro lado, a conservação dos edifícios(monumentos,
grandes equipamentos e outros) tem lugar, necessariamente, in situ. Ela provoca
dificuldades técnicas muito diferentes. Está na dependência do domínio público
e político, envolve mecanismos edilícios, econômico sociais, psicológicos
complexos, que geram conflitos e dificuldades. Não se podem colecionar os
templos ou anfiteatro romanos.” (CHOAY, 2001, p. 52)
Como podemos notar nos
trechos apontados acima ao se instituir o tombamento de um determinado Bem,
seja ele móvel ou imóvel, desencadeia-se um grande esforço social para que o
mesmo seja mantido intacto, “tal como era” em sua antiguidade de glórias. Um
outro campo a ser explorado é aquele que diz respeito às novas demandas sociais
que ficaram ainda mais evidentes a partir dos anos 70 a mesa redonda de
Santiago, nestes movimento nota-se uma necessidade por parte dos atores sociais
em participar de maneira ativa da construção de sua própria memória e de um
patrimônio no qual os mesmos se vejam representados.
Após a visita in loco das
edificações que hoje compõe o “Conjunto Moderno da Pampulha”, o fator que mais
nos chama a atenção é o da subutilização dos mesmos e da pequena adesão dos
público local na “vida” dos mesmos. Dentre as edificações visitadas o Museu de
Artes é aquela que mais chama atenção, hoje o prédio, que foi concebido para
abrigar o cassino, está totalmente subutilizado, não sendo capaz de exercer as
funções as quais está ligado, que são as de abrigar o acervo do Museu de Arte
de forma segura. Uma das possíveis saídas para este problema seria a
intervenção física em alguns dos espaços para que os mesmos fossem adaptados à
seu uso atual, no entanto as mesmas não podem ser realizadas devido às
políticas atuais de tombamento e proteção adotados tanto pelo IPHAN, na forma
do Decreto-lei n°25, quanto os da UNESCO que dizem respeito ao caráter de
originalidade do Bem imóvel. Como se pode notar as atuais políticas de proteção
acabam gerando um espécie de congelamento do patrimônio edificado levando o
mesmo à “morte”.
Dentre as principais
ferramentas para responder a questão da construção de um patrimônio sustentável
podemos destacar a maior atenção do seu aspecto imaterial segundo CASTRIOTA
(2009, p.103) “Essa mudança na percepção da questão parece se estender ao
próprio patrimônio material: não é fortuito que o ICOMOS tenha tentado promover
seu simpósio internacional em 1999 no Zimbábue em torno da temática dimensão
material do imaterial.”. Neste aspecto temos muito à aprender com a cultura
oriental, tomemos como modelo o templo japonês Horyu-ji, patrimônio reconhecido
pela unesco, que é um ótimo exemplo de preservação sustentável, uma vez que,
por se tratar de uma estrutura de madeira, a sua manutenção é frequente, assim
como o seu uso, trata-se um Bem que foi tombado e tornou-se patrimônio da
Humanidade pela UNESCO devido ao seu caráter histórico, religioso e técnico,
sendo o seu aspeto estético secundário e de menor importância para o seu simbolismo
para a comunidade local.
Dentre as principais
ferramentas para responder a questão da construção de um patrimônio sustentável
podemos destacar a maior atenção do seu aspecto imaterial segundo CASTRIOTA
(2009, p.103) “Essa mudança na percepção da questão parece se estender ao
próprio patrimônio material: não é fortuito que o ICOMOS tenha tentado promover
seu simpósio internacional em 1999 no Zimbábue em torno da temática dimensão
material do imaterial.”. Neste aspecto temos muito à aprender com a cultura
oriental, tomemos como modelo o templo japonês Horyu-ji, patrimônio reconhecido
pela unesco, que é um ótimo exemplo de preservação sustentável, uma vez que,
por se tratar de uma estrutura de madeira, a sua manutenção é frequente, assim
como o seu uso, trata-se um Bem que foi tombado e tornou-se patrimônio da
Humanidade pela UNESCO devido ao seu caráter histórico, religioso e técnico,
sendo o seu aspeto estético secundário e de menor importância para o seu
simbolismo para a comunidade local.
Este modelo de conservação e manutenção do Bem imóvel, muito comum
aos asiáticos, leva em consideração não os aspectos estéticos, estilísticos e
de “originalidade” da edificação e sim sua representação no campo do imaterial,
do intangível e, não menos importante, seu valor econômico e social.
Temos muito a aprender sobre
as políticas de proteção, conservação e salvaguarda dos bens imóveis, assim
como outros modos de fazer e transmitir os valores culturais que estão para
além do engessamento e da grande oneração gerada pelas ações contemporâneas que
buscam cegamente por um passado que, mal sabem eles, está mais presente do que
nunca deixando claro que com as políticas hoje em relação ao tombamento,
baseados no Decreto-Lei n°25 de 1937, e as convenções adotadas pela unesco no
caso do Conjunto Moderno da Pampulha, só nos levam a crer que o patrimônio mais
democrático é a ruína.
BIBLIOGRAFIA:
Belo Horizonte (MG). Prefeitura. Arquivo Público da Cidade de Belo
Horizonte. A Pampulha no acervo fazendário do Arquivo Público da Cidade de Belo
Horizonte: 1936-1947: Catálogo de Fontes. - Belo Horizonte: ACAP-BH / APCBH,
2005.
CHOAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. Tradução de Luciana
Vieira Machado. São Paulo: Estação Liberdade: Editoa UNESP, 2001.
CASTRIOTA, Leonardo Barci. Patrimônio cultural: conceitos,
políticas, instrumentos. São Paulo: Annablume; Belo Horizonte: IEDS, 2009.
Decreto-Lei N°25 1939: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del0025.htm (Pesquisado em 12/06/2018.
20:19h.
DESVALLEES, A.; MAIRESSE, F. Conceitos claves de museología.
ICOFOM/ICOM. Belo Horizonte, 2016.

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