Memória e Identidade Social



Autor: Júnio G. P. Machado



FICHAMENTO

POLLAK, Michael. Memória e Identidade Social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.5, n.10, p. 200-212, 1992.

Memória e Identidade Social

Ao início de sua dissertação o autor aponta que tratará do “problema” entre memória e identidade social, mais precisamente sobre a “história oral”.
Segundo POLLAK (1992, p. 2) “há algumas designações, atribuídas a determinados períodos, que aludem diretamente a fatos de memória, muito mais do que a acontecimentos ou fatos históricos não trabalhados por memórias. Por exemplo, quando se fala nos ‘anos sombrios’, para designar a época de Vichy, ou quando se fala nos "trinta gloriosos", que são os trinta anos posteriores a 1945, essas expressões remetem mais a noções de memória, ou seja, a percepções da realidade, do que à factualidade positivista subjacente a tais percepções.”. Ao analisar este trecho logo percebemos que existe uma dicotomia entre a memória e a realidade dos fatos, uma vez que, como demonstrado no exemplo acima, certos períodos históricos podem ganhar conotações bem distantes do que o estudo dos fatos apontam.

POLLAK (1992, p. 2) citando Maurice Halbwachs aponta que apesar de parecer um fenômeno individual a memória deve ser entendida sobretudo como um fenômeno social que esta sujeito a modificações em sua compreensão ao longo do tempo, ou seja, a memória é suscetível à mudanças constantes. Apesar desse caráter flutuante a memória apresenta também algumas características imutáveis, que são elementos que estão tão fixados como um fato que não podem ser modificados. Segundo POLLAK há dois tipos de há dois elemento responsáveis pela constituição da memória, em primeiro lugar esta os “acontecimentos vividos” e em segundo os “acontecimentos ‘vividos por tabela’”, sendo que o primeiro acontece de maneira individualizada e o segundo diz respeito a um grupo. Outro modelo de constituidor da memória são as “pessoas, personagens” (POLLAK 1992, p.2) que assim como os acontecimentos podem ser conhecidas por terem sido vivenciadas diretamente ou vivenciadas por tabela. Um terceiro critério segundo o autor ficaria por conta dos lugares que mesmo distantes e vividos indiretamente podem gerar memória e noção de pertencimento (POLLAK, 1992, p.3).

Um das principais fenômenos em relação a memória é o fenômeno da transferência onde fatos e características marcantes de um determinado fato podem ser levados para outros momentos ou períodos sendo repassados como uma espécie de herança de memórias. Neste fenômeno de transferências pode acontecer dos fatos acontecidos individualmente sobreporem os acontecidos publicamente ou vice-versa, nestes casos o que define as memórias a serem conservadas em detrimento de outras é a posição social onde o indivíduo ou o grupo se encontra (POLLAK, 1992, p.3 - 4).

            Após apontar os fenômenos da memória como um fenômeno social que é flexível e as questões de transferência e projeção de acontecimento, POLLAK  afirma que:

 “A memória é seletiva. Nem tudo fica gravado. Nem tudo fica registrado. [...] Isso é verdade também em relação à memória coletiva, ainda que esta seja bem mais organizada [...] A memória organizadíssima, que é a memória nacional, constitui um objeto de disputa importante, e são comuns os conflitos para determinar que datas e que acontecimentos vão ser gravados na memória de um povo.” (POLLAK, 1992, p. 4)

E por último POLLAK (1992, p. 4 – 5) aponta que a memória, em sua constituição, também é submetida ao fenômeno da construção, ou melhor dizendo, a memória é construída de maneira consciente e também de maneira inconsciente segundo o autor “O que a memória individual grava, recalca, exclui, relembra, é evidentemente o resultado de um verdadeiro trabalho de organização.”


Um dos pontos levantados pelo por POLLAK é a questão da construção da identidade individual através do fenômeno da construção da memória. Para o auto existe um grande ligação entre o fenômeno da memória e o “sentimento de identidade”, que segundo ele, pode ser entendido como a imagem que a pessoa faz de si próprio.


“Se podemos dizer que, em todos os níveis, a memória é um fenômeno construído social e individualmente, quando se trata da memória herdada, podemos também dizer que há uma ligação fenomenológica muito estreita entre a memória e o sentimento de identidade.
Aqui o sentimento de identidade está sendo tomado no seu sentido mais superficial, mas que nos basta no momento, que é o sentido da imagem de si, para si e para os outros. Isto é, a imagem que uma pessoa adquire ao longo da vida referente a ela própria, a imagem que ela constrói e apresenta aos outros e a si própria, para acreditar na sua própria representação, mas também para ser percebida da maneira como quer ser percebida pelos outros.”. (POLLAK, 1992, p. 5)


POLLAK (1992, p. 6) aponta que não há dúvidas de que a memória e especialmente a memória política é motivo de disputa entre várias organizações. O autor aponta ainda que os responsáveis por esta memória constituída são os historiadores e os “historiadores orgânicos”, estes últimos responsáveis por realizar um “trabalho de enquadramento da memória”. Para exemplifica o autor cita os historiadores do Partido Comunista, os historiadores do movimento gaullista e os sindicalistas e socialistas. Ainda segundo POLLAK (1992, p. 7) esse movimento é mais nítido em países que tiveram uma unificação tardia como é o caso da Alemanha no século XIX. Além do “trabalho de enquadramento da memória”, para o autor existe também um “trabalho da própria memória em si”, que segundo o autor trata-se da manutenção sistemática de uma memória já solidificada.


Intervenções no Debate


Em relação a crítica as fontes orais, POLLAK assume uma postura de otimismo deixando ao entender que todas as fontes são passíveis de serem criticadas uma vez que a memória é socialmente construída.

“Se a memória é socialmente construída, é óbvio que toda documentação também o é. Para mim não há diferença fundamental entre fonte escrita e fonte oral. A crítica da fonte, tal como todo historiador aprende a fazer, deve, a meu ver, ser aplicada a fontes de tudo quanto é tipo. Desse ponto de vista, a fonte oral é exatamente comparável à fonte escrita. Nem a fonte escrita pode ser tomada tal e qual ela se apresenta.” (POLLAK, 1992, p. 8)

POLLAK diz ainda que “a rigor, sem assumir o ponto de vista do positivismo ingênuo, podemos considerar que a própria história das representações seria a história da reconstrução cronológica deste ou daquele período.” (POLLAK, 1992, p. 8)

Sobre a Tendência da História Oral Valorizar o Subjetivo por Oposição ao Objetivo


POLLAK (1992, p. 11) aponta o debate sobre História Objetiva com História Subjetiva como já ultrapassado, diz que a história hoje é feita de maneira ampla e constitui em “histórias”, ouve um grande avanço na aceitação da história oral em relação ao olhar simplista e positivista da ciência.

“O debate entre subjetividade e objetividade transformou-se num debate opondo a escrita literária à escrita cientificista. Haveria de um lado o vazio, o seco, o enfadonho, que seria o discurso científico, ainda por cima reducionista e, diz Régine Robin, fechado à pluralidade do real, enquanto a história oral seria uma das possibilidades de reintroduzir nas ciências humanas, depois do período estruturalista, uma escrita não apenas subjetiva, mas sobretudo literária.” (POLLAK, 1992, p. 11).











REFERÊNCIA:



POLLAK, Michael. Memória e Identidade Social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v.5, n.10, p. 200-212, 1992.

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