Patrimônio Sustentável: O que O templo de Horyu-ji pode nos ensinar?
Patrimônio Sustentável: O que O templo
de Horyu-ji pode nos ensinar?
Júnio Machado
Palavras chaves: Patrimônio sustentável, restauro, romantismo, estética, patrimônio horizontal.
RESUMO:
O presente artigo visa apresentar como
o patrimônio histórico vem sido construído na contemporaneidade através de
um olhar romantizado herdado de uma cultura que ha muito se tomou como verdade
absoluta deixando de lado a discussão crítica das características que são
levadas em consideração pelos atores responsáveis pela
institucionalização.
A discussão em relação ao patrimônio e
sua sustentabilidade passou a ser uma das principais pautas da atualidade, a
compreensão do patrimônio e as políticas de proteção a ele destinadas são peças
fundamentais na busca por um cenário construído horizontalmente e de maneira
consciente e equilibrada tanto financeira, quanto qualitativamente.
Ao nos debruçarmos sobre a questão da
construção do patrimônio que temos hoje, principalmente o edificado, logo
notamos que há ao mesmo tempo um romantismo quanto um afastamento em relação ao
mesmo, este afastamento que pode ser compreendido também como uma espécie de
“violência simbólica”. segundo CHOAY (2001) esta relação romantizada criada em
torno do patrimônio construído deve-se á um processo de “afastamento histórico”
que tem sua origem em meados de 1400 d. C na Grécia.
“Á época em que Petrarca escreve o poema “África’, no entanto, os
edifício clássicos estão a serviço de uma relação ainda exclusivamente textual
com a Antiguidade. A forma e a aparência dos monumentos romanos não requerem a
sensibilidade visual; eles dão uma legitimidade á memória literária. mais que
seus monumentos individuais, é todo o sitio de Roma que evoca antes de tudo ‘um
modo exemplar (...), a virtus e a virilidade, em uma palavra, um clima moral.”
(CHOAY, 2001, P.45)
Um terceiro aspecto que deve ser
levando em consideração quando tratamos a sustentabilidade de uma edificação
que se encontra sob a tutela do Estado é seu aspecto estético, que na maior
parte das vezes é considerado o principal aspecto do Bem tombado. Está enfase
dada a este aspecto em questão acaba levando os conservadores e restauradores á
um grande equívoco em relação a manutenção de tais patrimônios, uma vez que
estes profissionais com a mais bela das intenções sugerem que para garantir a
autenticidade e conservação da edificação é necessário o seu tombamento como um
todo, ou seja, são impostas limitações ao uso, a adequação e as reformas. Ora
logo notamos que há por parte dos profissionais envolvidos uma certa
ingenuidade no que diz respeito a autenticidade e “vida” deste patrimônio,
nota-se que estes profissionais, apesar de possuírem um grande conhecimento
técnico e científico, acabam sendo atraídos pelo encanto estético do bem e
traídos por seu doce néctar.
Obviamente não podemos, assim como nossos
amigos arquitetos, historiadores e museólogos ceder ao engano de que o caráter
estético é a principal característica de um patrimônio, e que tal
característica se sobrepõe às demais ao se analisar a importância histórica e
social de um monumento/documento. Ao contrário do que se pode supor esta
tendência de adoração do “belo”, tendo como base elementos como proporção,
simetria e ritmo foi sistematicamente inserida no “gosto” popular até que suas
origens fossem aos poucos sendo distanciadas pelo tempo transcorrido e que esta
admiração pela estética, principalmente a estética clássica, soasse natural.
Segundo CHOAY (2001 p. 49) entre 1420 e 1430 abre-se um diálogo entre artistas
e humanistas, sendo os primeiros educadores do olhar dos segundos dotados de alta
cultura e prestígio social, segundo a autora “os primeiros formam o olhar dos
segundos, ensinando-lhes a ver com outros olhos. Por sua vez, estes últimos
revelam ao arquitetos e escultores a perspectiva histórica e a riqueza da humanitas
greco-romana, cujo conhecimento faz com que sua visão das formas antigas
adquira uma acuidade e uma profundidade inéditas.” (CHOAY, 2001, p. 49). Como
pode-se notar o modelo de admiração da estética em relação ao Monumento vem de
longa data e influencia de maneira direta nas políticas de proteção e
inventariação de bens culturais, no entanto trataremos aqui o modo como esta
valorização desta característica em detrimento de outras no que diz respeito à
conservação e restauro de monumentos e edificações tombadas. Em primeiro lugar
nota-se um grande acúmulo de bens que foram submetidos às leis de salvaguarda e
que, guardada as devidas proporções, foram escolhidos de maneira vertical por
grupos de grande influência política e que tem como justificativa básica, às
vezes única, a proteção do bem devido á sua estilística arquitetônica, sua
riqueza de detalhes ou simplesmente por considerá-los velhos. Como se pode
notar os patrimônios que são hoje submetido a leis de salvaguarda são eleitos
de forma vertical e embasados, como aponta CHOAY, na tríade “bela antiguidade,
idade obscura e renascimento moderno”, ou seja, dá-se valor apenas ao que se
considera antigo ou contemporâneo, excluindo-se tudo aquilo que pertence ao
períodos medianos, em outras palavras, o presente é excluído do processo, assim
como os grupos sociais que nele se situam.
“A literatura dos humanistas sobre o conhecimento e o prazer propiciados
pelas obras da Antiguidade faz com que se espere que sejam conservadas, de
forma deliberada e organizada. Esta assume formas diferentes segundo se trate
de objetos móveis ou de edifícios [...] Por outro lado, a conservação dos
edifícios(monumentos, grandes equipamentos e outros) tem lugar,
necessariamente, in situ. Ela provoca dificuldades técnicas muito diferentes.
Está na dependência do domínio público e político, envolve mecanismos
edilícios, econômico sociais, psicológicos complexos, que geram conflitos e
dificuldades. Não se podem colecionar os templos ou anfiteatro romanos.”
(CHOAY, 2001, p. 52)
Como podemos notar nos trechos
apontados acima ao se instituir o tombamento de um determinado Bem, seja ele
móvel ou imóvel, desencadeia-se um grande esforço social para que o mesmo seja
mantido intacto, “tal como era” em sua antiguidade de glórias. Um outro campo a
ser explorado é aquele que diz respeito às novas demandas sociais que ficaram
ainda mais evidentes a partir dos anos 70 a mesa redonda de Santiago, nestes
movimento nota-se uma necessidade por parte dos atores sociais em participar de
maneira ativa da construção de sua própria memória e de um patrimônio no qual
os mesmos se vejam representados.
Dentre as principais ferramentas para
responder a questão da construção de um patrimônio sustentável diz respeito a
maior atenção do seu aspecto imaterial segundo CASTRIOTA (2009, p.103)
“Essa mudança na percepção da questão parece se estender ao próprio
patrimônio material: não é fortuito que o ICOMOS tenha tentado promover seu
simpósio internacional em 1999 no Zimbábue em torno da temática dimensão
material do imaterial.”. Neste aspecto o templo de Horyu-ji é um ótimo exemplo
de preservação sustentável, uma vez que, por se tratar de uma estrutura de
madeira, a sua manutenção é frequente, assim como o seu uso, trata-se um Bem
que foi tombado e tornou-se patrimônio da Humanidade pela UNESCO devido ao seu
caráter histórico, religioso e técnico, sendo o seu aspeto estético secundário
e de menor importância para o seu simbolismo para a comunidade local.
Este modelo de conservação e manutenção
do Bem imóvel, muito comum aos asiáticos, leva em consideração não os aspectos
estéticos, estilísticos e de “originalidade” da edificação e sim sua
representação no campo do imaterial, do intangível e, não menos importante, seu
valor econômico e social.
Temos muito a aprender com o templo de
Horyu-ji e as políticas de proteção adotadas para a sua salvaguarda, assim como
outros modos de fazer e transmitir os valores culturais que estão para além do
engessamento e da grande oneração gerada pelas ações contemporâneas que buscam
cegamente por um passado que, mal sabem eles, está mais presente do que nunca
deixando claro que com as políticas hoje em relação ao tombamento, baseados no
Decreto-Lei n°25 de 1937, só nos levam a crer que o patrimônio mais democrático
é a ruína.
BIBLIOGRAFIA:
CHOAY, Françoise. A alegoria do
patrimônio. Tradução de Luciana Vieira Machado. São Paulo: Estação Liberdade:
Editoa UNESP, 2001.
CASTRIOTA, Leonardo Barci. Patrimônio
cultural: conceitos, políticas, instrumentos. São Paulo: Annablume; Belo Horizonte:
IEDS, 2009.
Decreto-Lei N°25 1939: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del0025.htm
(Pesquisado em 12/06/2018. 20:19h.

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