ANÁLISE CRÍTICA DA ADE DO BAIRRO SANTA TEREZA EM BH
ANÁLISE CRÍTICA DA
ADE DO BAIRRO SANTA TEREZA EM BH
Autor:
Júnio Machado
As ADEs (Área de Diretrizes
Especiais) são áreas de previstas no zoneamento urbano para receberem uma
atenção diferenciada por parte do poder público. Tratam-se de áreas de
interesse coletivo devido ao seu valor histórico, artístico, cultural ou mesmo
social. Ao se adotar a ferramenta da ADE presume-se que o órgão público fez um
estudo adequado e que a aplicação da mesma levará a obtenção de um quadro de
evolução planejada dos processos urbanos daquela área em questão. Nas breves
linhas baixo farei uma análise sobre a aplicação da ADE como uma ferramenta de
preservação do Bairro Santa Tereza e tentaremos expor a efetividade da
aplicação da mesma. Para se obter estas analises foram usados estudos
bibliográficos sobre a área e sobre o patrimônio de modo geral além de
observações feitas in loco e
entrevistas com os moradores e frequentadores do bairro.
A ADE do Bairro Santa Tereza
se distingue das demais ADEs que vigoram em Belo Horizonte pelo fato de sua
criação ter acontecido por reivindicações e movimentos organizados pelos
próprios moradores (movimento “Salve Santa Tereza”) insatisfeitos com o plano
diretor de 1995 que incluía o bairro as zonas de adensamento preferencial
(ZAP), induzindo assim o surgimento de edifícios de vários andares. Um exemplo
é o caso da rua Hermílio Alves que chegou a contar com edificações de até 12
pavimentos.
Ao
se opor ao Plano Diretor de 1995, o movimento que pretendia frear a voracidade
do mercado imobiliário que encontraria os meios favoráveis no permissor mercado
que é o bairro de Santa Tereza, uma vez que este último além de contar com
mesoestrutura razoável conta também como localidade privilegiada em relação ao
centro da cidade. Segundo os idealizadores do movimento os empreendimentos
possibilitados pela ZAP comprometeriam a qualidade de vida, a sociabilidade do
bairro e o patrimônio histórico (cultural e paisagístico).
Sabemos que a criação da ADE
não afastou os interesses do capital imobiliário, ao contrário, intensificou a
procura das construtoras pelo bairro. Fenômeno este que facilmente se explica
pela lei de oferta e procura, ou seja, ao diminuir a oferta com limitação pela
ADE o mesmo não ocorreu com a procura que continuou a mesma, logo a defasagem
entre oferta e procura fez com que os preços de imóveis no bairro se elevassem
consideravelmente. O que torna ainda mais rentável os investimentos no local.
A
implantação da ADE estabeleceu que as atividades desenvolvidas no bairro
estivessem enquadradas no grupo 1, com prédios com até 15 metros de altura e
construções novas desde de que não impliquem na demolição de edificações hoje
existentes. Foi previsto ainda que para a construção de edifícios de uso
familiar o coeficiente de aproveitamento fosse de 1,2 e de 1,0 para as
destinadas aos usos não residenciais e mistos.
Fica
claro que as medidas adotadas através da lei restringem as construções de
“espigões”, mas, no entanto, a construção de “predinhos” de até 3 pavimentos
teve um forte crescimento. Ao analisarmos a situação verifica-se que mesmo que
para a implantação de uma edificação de três pavimentos tenha que se subtrair
uma ou duas residências, não ocorre nesse processo a mudança de padrão
construtivo ou seja, guardada em suas devidas proporções a construção de
prédios de ate 15 metros permitindo o aumento da densidade demográfica mas no
entanto os impostos gerados por este tipo de substituição é mínimo uma vez que
este aumento populacional é um tanto tímido e os futuros habitantes estão
dentro de uma padrão social bem próximo daquele que predomina no bairro. Dessa
forma a tipologia acima tratada não surge como um possível vilão para ampla
descaracterização do bairro Santa Tereza, mesmo porque o parcelamento do bairro
que assim como outros aspectos, permanece o mesmo do início do sec. XX, com
lotes em formatos retangulares com a menor face voltada para a rua. O que
dificulta o enquadramento desta tipologia a apenas um lote, se consideramos que
assim como toda a região leste da capital o bairro Santa Tereza é bastante
consolidado, contando com poucos vazios. Fica evidente que este tipo de
investimento acaba sendo intimidado devido aos investimentos necessários e ao
processo de negociação com os proprietários, que as vezes podem ser vários em
um único imóvel que é o caso do residências multifamiliares ou mesmo de uso
misto.
Após
verificarmos as tipologias possibilitadas pela ADE, nota-se que o receio dos
moradores que deram origem ao movimento “Salve Santa Tereza” em relação a perca
de identidade de “bairro”, deriva do aumento da densidade demográfica e da
intensidade do tráfego de veículos, ambos proporcionais pela verticalização
excessiva, que pode ter sido sanada com as determinações das diretrizes da ADE.
No
entanto é evidente que as diretrizes da ADE quanto à ocupação do solo,
favorecem o uso residencial, dando origem e um novo agente dentro desta rede.
Este novo agente que denominaremos neste texto de “novo morador”, é responsável
por uma renovação de casa por casa. Onde ele traz consigo uma mudança não
experimentada na renovação por edificações de até 15 metros, que é a mudança da
tipologia construída. Mudança está que pode ser vista com maior preocupação por
indicar o início de um novo processo no qual o novo morador atraído pela
aquisição de um imóvel que possuí um valor alto do ponto de vista do
investimento para aferição de renda, mas que no entanto se torna vaiável uma
vez que vem atraído por um marketing que se baseia na tradicionalidade, cultura
e qualidade de vida fornecida pelo bairro. O temor a instalação desse novo
morador no bairro está na sua relação com este espaço que às vezes por se
tratar de um local que passa uma centralidade de atendimento a nível local e
por tanto atendendo a um público até então em um padrão aquisitivo de nível
médio, não o atende de maneira satisfatória. Assim temos a tendência do mercado
local ser substituído por um comércio sofisticado que conta com um capital de
investimento que supera o capital do comércio existente no bairro. Fazendo com
que este último tenha sua resistência reduzida ao mínimo, tendo poucas chances
de sobreviver. Ora se analisarmos deste ponto o processo acima citado apesar de
ser favorecida por uma lei que prevê a manipulação do bairrismo presente no
Santa Tereza provavelmente por ser tão hostil a vida de bairro quanto a tão
temida verticalização.
Se
analisarmos friamente, logo apontaremos a crueldade da presença do novo
morador. No entanto este último tem um forte álibi que é o seu gosto pelo
bairro de Santa Tereza como tal, o que faz com que este novo morador não queira
ter suas práticas cotidianas atendidas
pelo âmbito do bairro e sim enquadrar suas praticas ao âmbito do bairro. Isso
significa que mesmo que haja uma cervejaria com uma marca sofisticada este novo
morador não estará submetido a ela, pelo contrário, tal cervejaria será mais
uma dentre as opções do bairro, que diga-se de passagem, são muitas..
Ao
realizar o movimento “Salve Santa Tereza” os moradores demostraram como se
orgulham de residir em um bairro que tem em si valores que conferem direito de
ser classificados como tal. Os ideais daqueles que participam do movimento
foram traduzidos em forma de diretrizes da ADE Santa Tereza. Está última, que
como vimos resguardar todos os valores que os moradores julgam importantes para
a manutenção e conservação da vida de bairro com sua segurança, sociabilidade e
a qualidade de vida. O grande detalhe, talvez o mais interessante deles é que a
ADE ao favorecer o uso residencial restringe i surgimento de espigões mas não
elimina a possibilidade de um aumento do número de imóveis ao permitir uma
verticalização modesta. É certo de que o mercado imobiliário pós ADE busca um
público com um poder aquisitivo distinto daquele que predomina no bairro, no
entanto vimos que o “novo morador” não deve ser considerado como um ponto
negativo , uma vez que o mesmo busca o bairro em sua maior significância, não
sendo assim tão distinto dos antigos moradores.
Assim
a ADE aplicada ao bairro Santa Tereza é considera positiva no contexto de
atender as reivindicações dos moradores que lhe deram origem e invés de aderir
a um tombamento total do bairro, abre espaço para uma renovação moderada
permitindo que as necessidades em relação ao uso dos espaços continue,
imprimindo suas marcas na arquitetura. A ADE neste modelo atual pode ter aberto
caminho para que o bairro se torne um híbrido sem perder sua essência de lugar.
O desejo que fica exposto é que daqui um médio prazo de tempo que as que se
debruçarem sobre o cenário de Santa Tereza possa encontrar um acervo
arquitetônico que contemple exemplares do século XX ao lado de exemplares do
início do século XXI e assim por diante.
“(...) a porção do espaço apropriável para a vida,
revelando o plano da
microescala:
o bairro, a praça, a rua, o pequeno e restrito comércio que pipoca na
metrópole, aproximando seus moradores, que podem ser mais do que pontos de troca de mercadorias, pois criam
possibilidades de encontro e guardam uma significação como elementos de
sociabilidade. A análise da vida cotidiana envolve o uso do espaço pelo corpo,
o espaço imediato da vida das relações
cotidianas mais finas: as relações de vizinhança, o ato de ir às
compras, o caminhar, o encontro, os jogos, as brincadeiras,
o percurso reconhecido de uma prática vivida/reconhecida em pequenos
atos corriqueiros e aparentemente sem sentido que criam laços profundos de
identidade, habitante-habitante e habitante-lugar, marcada pela presença. São,
portanto, os lugares que o homem habita dentro da cidade e que dizem respeito a
sua vida cotidiana, lugares como condição da
vida, que vão ganhando o significado dado pelo uso (em suas possibilidades
e limites). Trata-se, portanto, de um espaço palpável, real e concreto - a
extensão exterior, o que é exterior a nós, e ao mesmo tempo interior. São as
relações que criam o sentido dos "lugares" da metrópole. Isto porque
o lugar só pode ser compreendido em suas referências, que não são específicas
de uma função ou de uma forma, mas produzidas por um conjunto de sentidos,
impressos pelo uso. É assim que os percursos realizados
pelos habitantes ligam o lugar de domicilio aos lugares de lazer, de trabalho, de comunicação, ordenados segundo as
propriedades do tempo vivido.
Nesse processo se desvenda a base da reprodução da vida
passível de ser analisada pela relação
habitante-lugar (pela mediação do uso), como produtora
de identidade do indivíduo. A construção da cidade, hoje, revela a dupla tendência entre a imposição de um
"espaço que se quer moderno", logo homogêneo e monumental,
definido, ou melhor, "desenhado" como espaço que abriga construções em altura associadas a uma rede de comunicação densa e rápida, e de outro "as
condições de possibilidade", que se referem à realização da vida
(que se acham à espreita, de modo contestatório),
revelando uma luta intensa em torno dos modos de apropriação do espaço e do tempo na metrópole - um processo que ocorre
de modo profundamente desigual, revelando-se em seus
fragmentos.” (CARLOS, 2001, P.35-36)
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
BAGGIO, Ulysses da Cunha. A
Luminosidade do lugar, circunscrições intersticiais do uso do espaço em Belo
Horizonte: apropriação e territorialidade no bairro de Santa Tereza.
CARLOS, Ana Fani A.
Espaço-Tempo na Metrópole: a fragmentação da vida cotidiana. São Paulo:
Contexto, 2001. p.35 e 36.
CHOAY, Françoise. A Alegoria Do Patrimônio. São Paulo:
Estação Liberdade, 3° Ed. São Paulo.

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