Memória Coletiva e Memória Individual
AUTOR:
Júnio G. P. Machado
RESUMO
HALBWACHS,Maurice.
Memória Coletiva e Memória Individual. In: A memória Coletiva. São Paulo:
Vértice, 1990. (P. 25- 52).
Capítulo
1 – Memória Coletiva e Memória Individual
Confrontações
Ao iniciar
seus apontamentos sobre memória HALBWACHS (1990, p. 25) afirma que “Fazemos
apelo aos testemunhos para fortalecer ou debilitar, mas também para completar,
o que sabemos de um evento do qual já estamos informados de alguma forma,
embora muitas circunstâncias nos permaneçam obscuras.”, ou seja, para o autor a
memória é ativada por elementos dos quais guardamos algum tipo de conhecimento
e que a mesma não acontece de maneira plena e sim repleta de lacunas. Fica
claro que a memória funciona como uma ferramenta que pode “reforçar”, “debilitar”
ou mesmo “completar” algo que tivemos algum conhecimento prévio. Segundo o
autor a memória individual reforça-se através da memória coletiva a medida que
a lembrança quando pertencente a mais de um individua passa a ganhar um status
de veracidade conferida pelos diversos testemunhos.
Para
HALBWACHS nenhum sujeito é uma tábula rasa, desprovido de conhecimento e
informações sobre um determinado tema, para o auto ao se colocar em qualquer
situação o indivíduo usa de uma espécie de “lente” para analisar as mais
diversas situações, esta lente é criada através da união de pontos de vista
distintos aos quais o sujeito/individuo obteve contato previamente seja por
conversas, leituras ou mesmo a própria observação de um estudo sobre o objeto
em questão. (p. 26-27)
O
Esquecimento pelo Desapego de Um Grupo
A
memória é construída com a soma dos conhecimentos individuais e coletivos,
sendo estas lembranças uma imagem que construímos através de relatos reais e fictícios
de um fato. Segundo o autor “para algumas lembranças reais junta-se assim uma
massa compacta de lembranças fictícias [...] Num e em outro caso se as imagens se
fundem tão intimamente com as lembranças e se elas parecem emprestar a estas
sua substância, é que nossa memória não é uma tábula rasa, e que nos sentimos
capazes por nossas próprias forças, de perceber, como num espelho turvo, alguns
traços e alguns contornos (talvez ilusórios) que nos devolveriam a imagem do
passado” (HALBWACHS, 1990, p. 28)
Para
HALBWACHS (1990, p. 33) a nossas lembranças tendem a ser construídas dentro de
determinados grupos de atividades sociais, há lembranças que são compartilhadas
por um determinado grupo e que podem dizer respeito a um indivíduo que nem se
quer lembra desse grupo alguma vez ter existido. Isso significa que mesmo que
um fato seja marcante em um determinado momento pera um determinado grupo pode
acontecer de um individuo, mesmo que tenha participado diretamente do momento
do fato, não tenha absorvido esta lembrança justamente por ter um ponto de
vista distinto daquele compartilhado pelo grupo. Um exemplo apontado pelo autor
é o do caso da sala de aula que as lembranças de uma turma são nítidas para os
alunos e não são nada claras para o professor, justamente por que o professor
enxerga aquele conjunto de alunos, mas, socialmente, se distingue dele, ou
seja, vê por fora.
Necessidade
De Uma Comunidade Afetiva
Para
o autor a construção de lembrança está ligada de maneira afetiva a um
determinado grupo, assim à medida que esta afetividade diminui as lembranças
também tendem a diminuir ou mesmo á desaparecer.
“Não
é suficiente reconstituir peça por peça a imagem de um acontecimento do passado
para obter uma lembrança. É necessário que esta reconstrução se opere a partir
de dados ou de noções comuns que se encontram tanto no nosso espírito quanto no
dos outros, por que elas passam incessantemente desses para aquele e
reciprocamente, o que só é possível se fizeram e continuam a fazer parte de uma
sociedade.” (HALBWACHS 1990, p. 34)
Ao
abordar a questão da memória individual em relação a um grupo mais amplo
HALBWACHS (1990) lança mão da imagem gerada em nossa imaginação em relação a um
quarto com objetos e móveis “mergulhados dentro de uma semi-obscuridade” e que
visto a luz do dia não produz o mesmo efeito, assim o autor lança a seguinte
pergunta “Era então a nossa relação pessoal em presença dessas coisas que as transfigurava
para nós até este ponto?”. Com este questionamento o autor busca compreender se
há uma compreensão puramente individualizada de um momento específico e dessa
forma chega a seguinte resposta “Sim, se o quisermos, mas com a condição de não
esquecer que os nossos sentimentos e nossos pensamentos mais pessoais buscam
sua fonte nos meios e nas circunstâncias sociais definidas (...)” (HALBWASHS,
1990, p. 36)
Da Possibilidade da Memória Estritamente
Individual
Levando em consideração que nossas
memórias são sempre ativadas por “testemunhos” e por ações de um grupo é
lançado o seguinte questionamento:
“Mas será que não existem lembranças que
reaparece sem que, de algumas maneira, seja possível relaciona-las com um
grupo, porque p evento que reproduzem foi percebido por nós enquanto estávamos
sós, não em aparência, mas realmente sós, cuja imagem não se desloca no
pensamento de nenhum grupo de homens, e que nos recordaremos deslocando-nos
para um ponto de vista que não pode ser senão o nosso?” (HALBACHS, 1990, p. 37)
Para responder à questão o auto
divide a memória em dois estágios:
1° - Lembranças da infância: Neste
trecho o autor tenta buscara através de algumas de narrativas de lembranças da
infância se há alguma que esteja livre de infuências do meio social onde a
criança habita, ao fim HALBWACHS assumi que mesmo que seja possível tal
lembrança a mesma não pode ser de fato constatada.
2°- Lembranças de adulto : Assim
como as lembranças de criança as lembranças de adultos também não acontecem de
maneira totalmente individualizadas, mesmo que o adulto seja inserido em um grupo
distinto daqueles que ele esta habituado suas memórias e emoções terão relação
direta com seus conhecimentos já adquiridos.
A Lembrança Individual Como Limite
das Interferências Coletivas
Ao tratar do limite entre a
memória individual em relação a coletiva chega-se a conclusão de que o
indivíduo nada mais é que uma caixa de reverberadora daquilo que se produz
coletivamente e que de certa forma há também um controle de produção coletiva
no qual o indivíduo equivocadamente assume como uma lembrança exclusivamente
sua uma “imagem” que esta sendo divulgada por um grupo em especial. Esta
afirmação pode ser analisada na seguinte passagem:
“ ‘Já tínhamos pensado nisso’: nós
não percebemos que somos senão um eco. Toda a arte do orador consiste talvéz em
dar áqueles que o ouvem a ilusão de que as convicções e
os sentimentos que ele desperta neles não lhes foram sugeridos de fora, que
eles nasceram deles mesmos, que ele somente advinhou o que se elaborava no
segredo de suas conciências e não lhes emprestou mais que sua voz. (HALBWASHS,
1990, p. 47)
Apesar
desta destas questões apresentarem ainda um amplo terreno a ser explorado fica
compreendido que a memória é complexa e difícil de ser analisada em sua totalidade. Assim HALBWASHS (1990,
p. 51) define que “A sucessão de lembranças, mesmo daquelas que são mais
pessoais, explica-se sempre pelas mudanças que se produzem em nossas relações
com os diversos meios coletivos, cada um tomado á parte e em seu conjunto.”

Comentários
Postar um comentário