Contos: Uma Resposta a Caio Fernando Abreu.

Sapatinhos vermelhos

Naquela primeira noite, por ter sentido o desprezo dele,  ela , com a intenção de vingar-se, calçou aqueles sapatos vermelhos que ele lhe dera, sim, mas só fez isso após todo o ritual do banho e a escolha da melhor roupa, o banho para tirá-lo dela e a roupa para despertar  em si uma coragem que não tinha. Saiu para a noite, pois a noite é onde está o que não é moral e é onde, ela, corria menos risco de, como Ele, outro a rejeitasse. Logo encontrou um homem, mas para substituí-lo um não é suficiente, dois, talvez se aproxime, para garantir que o substituiriam, fazendo páreo a Ele, levou consigo para o seu apartamento três homens de três aspectos diferentes, pois em cada um apenas algumas características o traziam na memória e só a soma do três, quem sabe, iria construí-lo esta noite. Três fracos, eu diria, pois juraram dar conta do recado e no entanto pediram-lhe que não tirasse os sapatos, que nada mais eram que o símbolo da presença do homem que dela não sairá por inúmeras sextas-feiras de orgias, em que é penetrada por todos o seus orifícios, simplesmente, para suprir o prazer que Ele lhe trazia, penetrando-lhe apenas em seu cotidiano.
As várias sextas-feiras que se desencadearam, pelo desprezo que sofreu em uma que chamou de santa, pois não ousaria chamá-la de Paixão, chegaram ao fim, isso por causa da velhice, que tornou-se nítida em suas varizes e rugas, e por orientação do médico que tocou firme em sua coxas para dar-lhe a fulminante notícia de HIV positivo, constatado em um exame de sangue que solicitara pela possibilidade de uma dor que sentira nas com um corrimento na vagina e que pensara ser uma simples Sífilis ou uma mera Gonorreia.

Superar-se exige mais, de uma mulher, do que o simples ato de vingar-se do homem que a tenha desprezado, exige que ela, mais que dar-se ao mundo dê a si própria  o reconhecimento de sua grandeza humana, que em momento algum está ligada a sua vagina, apesar de estar o tempo todo ligado a sua feminilidade.

Autor: Júnio G. P. Machado

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