Rem Koolhas e as cidades Brasileiras
Este texto desenvolve-se em contrapartida ao apresentado pelo grupo “Interferência das interfaces tecnologicas no cotidiano”, que coloca uma condição completamente pessimista em relação as interfaces tecnológicas. Pretendo também esboçar uma visão pessoal sobre a maneira que a academia, de modo geral vem tratando o ensino de arquitetura.
As discussões em torno da arquitetura no âmbito acadêmico apontam para uma contemporaneidade fragmentada e dispersa onde os habitantes, com auxílio de aparatos tecnológicos, não são capazes de apreender e apropriarem-se, de maneira legítima, os lugares por onde passam ou habitam sejam eles públicos ou privados.
Vários textos e trabalhos presenciados durante a disciplina apontam para um futuro no qual cada vez mais a sociabilidade e o contato direto vai se dissolvendo em prol de uma vida genérica na qual as relações deixam de ser diretas e passam a acontecer por intermédio de imagens e representações. Melhor dizendo os estudos e conhecimentos disseminados na Academia apontam para metrópoles cada vez mais caóticas, pautadas pela individualidade trazidos pelo pensamento burgues de organização da vida material, esta última cada vez mais luxuosa, se distanciando de uma vida social dotada de legitimidade. De fato se analisarmos o cotidiano de classes abastardas, logo cairemos no erro de considerar a atuação das interfaces e lugares climatizados, considerados como os principais anestesiadores dos indivíduos, como uma realidade na qual a maioria dos habitantes de uma metrópole. No entanto verifica-se que a maioria da população não tem acesso e, por tanto, não usufruem destes lugares, considerados como os “junkspace” e acessórios sofisticados como ipads, iphones entre outros. Isto posto, seria interessante que deixássemos de lado essa formatação acadêmica e nos debruçássemos por alguns minutos milésimos de segundos de nosso valioso tempo sobre a verdadeira cidade que nos rodeia, logo envolto de surpresa e receio nos depararemos com um boom de sociabilidades acontecendo por todas as partes, nos mais improváveis espaços, seja ele imóvel ou móvel, higienizado ou sujo, quente ou frio, enfim em todos os cantos este contato acontece e tem sim valor e é, felizmente ou infelizmente, direto e real. O homem é um ser legitimamente social, e a cidade é fruta desta sociabilidade, sendo este um produto cultural, econômico e social.
Penso que existe um grande pessimismos na compreensão das bibliografias estudadas em sala, acredito que as interfaces digitais podem sim criar sociabilidades legitimas. Se fosse necessário apontar um fator que impede a apropriação dos espaços com todo o seu potencial, com certeza apontaria neste momento para as legislações que incidem sobre o uso e pretendem ensinar como cada espaço deve ser usado. Uma vez apontado o problema das leis autoritárias que regulamentam o uso da cidade, apontarei aqui o seu contraponto. Ao voltar um pouco de atenção para os lugares onde as legislações não incidem com mesmo vigor, onde as edificações não seguem a mesma formalidade, é justamente onde os espaços tem maior vitalidade, onde as pessoas ainda se encontram na rua e nelas fazem os mais variados usos, que vão desde as fogueiras e conversas nas esquinas às peladas no fim de semana. Outro exemplo esta nos coletivos e transportes públicos que explodem em diálogos sutis, encontros, brigas acontecem, amizades começam e terminam. Ali festas de aniversário são comemoradas, o assunto da política, da violência e do trabalho são discutidos por horas. Nos guetos da cidade que se diz metrópole esta sociabilidade não é diferente, e a informalidade do uso das edificações segue no mesmo ritmo, nestes lugares os singelos imoveis não possuem um uso definido, são ao mesmo tempo comercio, moradia e lazer.
O fato é que vivemos em cidades maquiadas de metrópoles modernas, que buscam sofisticação e progresso buscando ser semelhantes aquelas que o chamado primeiro mundo nos apresenta como exemplos de poder e glória econômica. Nota-se também que esta imagem que nos é vendida é absorvida não só pelas camadas populares mas também pelas camadas mais abastadas e através destes é inserida nas Academias de ensino, fazendo com que aqueles que deveriam se formar críticos tenham sua visão limitada e tornem-se repetidores de conhecimentos mistificados, tidos como vanguardas mas no entanto tão colonizado como a quinhentos anos atrás.
No decorrer desta disciplina pudemos assistir a pensadores como o cientista social Gesse de Souza que já nos alertava para as diferenças entre moderno e modernizado e para o problema do patriarquismo, a mistificação do nosso conhecimento científico a por fim da colonização de nossos grandes “intelectuais”. Uma revisão destes termos implantados nas vísceras da academia é imprescindível para que deixemos de analisar o mundo através de um filtro posto por um minoria abastarda, estes sim hipnotizados pelos luxos tecnológicos, e passemos a questionar o mundo com críticas de situações reais, experimentadas ou seja legítimas.
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